Starman e seu rastro de estrelas

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ANDRÉ CARNEIRO RAMOS |

 (Rio de Janeiro, 12-1-16) Conheci a música de David Bowie em 1983, quando sua faceta pop estava no auge e eu tinha lá os meus 11 anos de idade. Nessa época, as festas do colégio em que eu estudava não paravam de tocar o single ‘Let´s dance’, e algo de diferente acontecia à minha volta: as pessoas não resistiam àquele som cativante, e se deixavam levar naquela marcação de ritmo e música que fazia com que quase todos automaticamente aderissem àquela coletividade efusiva, que se congregava através de uma celebração diferente; tratava-se de uma música que não somente nos embalava, mas nos motivava, ofertando a todos uma energia sem igual; mergulhados em meio àquele turbilhão de emoções, sentíamo-nos capazes de vencer as adversidades do mundo.

Em meio a esse turbilhão de emoções pré-juvenis fui, paulatinamente, aprendendo a amar Bowie como a um velho amigo. Com o passar dos anos, pude compreender e assimilar que aquele inglês esquisito era mesmo um sujeito talentoso e cheio de estilo; sua plástica vitalidade, seu charme, sua desesperada tentativa de ser diferente, tudo isso nos convidava à celebração de sermos nós mesmos, e da maneira que bem escolhêssemos.

David Bowie significava a mesma coisa que “liberdade”.

Assim, passei definitivamente a perseguir sua luminosidade, descobrindo coisas inimagináveis que esse homem das estrelas já havia feito antes mesmo de eu nascer. Aliás, a famosa canção ‘Starman’ veio ao mundo junto comigo, em 1972, tornando-se, inclusive, a mais icônica de sua lavra, e fazendo com que o mundo conhecesse um de seus personagens mais reverenciados, Ziggy Stardust, um extraterrestre que se importava sobremaneira com a juventude terráquea, oferecendo reflexões musicais bem pertinentes, que marcariam os anos 70 juntamente com outros sucessos, como ‘Life on mars?’, ‘Changes’, ‘The Jean Genie’, ‘Young americans’, e ‘Heroes’, tendo sempre como foco sua singular capacidade de se reinventar a cada possível estagnação.

Na verdade, como se constata, este último vocábulo nunca existiria para o Major Tom (outra criação sua, o astronauta do hit de 1969, ‘Space Oddity’): nas imagens que permanecerão como o legado de sua autenticidade, a sensação que se tem é a de que Mr. Bowie foi um artista que se questionava o tempo todo, como se olhasse para um espelho imaginário desprezando a imagem que lhe surgia e sempre, num apelo ao novo – espécie de insatisfação consigo mesmo e sua arte –, para com isso se recriar num regurgito que o lançava continuamente ao futuro (não o aproximando de meras vanguardas apenas, mas elegendo-o como sinônimo delas).

A partir daí, tornei-me um “seguidor” mesmo desse sujeito, alguém que, mesmo a milhas e milhas de distância, hipnotizava-me com suas canções, trejeitos, moda, maneira de ser e agir. David Bowie, para mim, como um todo, expressaria de contínuo a ideia de inovação, talento, frescor, atitude, quebra de paradigmas. Enfim, música e poesia da melhor qualidade (sem contar suas participações no cinema: era um extraordinário ator!).

A saber: eu e o mundo amávamos David Bowie.

Todavia, este seu desaparecimento repentino de agora nos lançou a um imenso vazio.

O fato é que, de forma premonitória, enxerguei muitas de suas aflições num de seus derradeiros acordes. Tratava-se do videoclipe de sua canção de despedida ‘Lazarus’ (parte de seu último álbum, Blackstar, lançado no último dia 9, data em que o ídolo completou 69 anos), e que me revelou (talvez por intuição minha) bizarras mensagens: o esforço por ele realizado em nos propor um entendimento do enigma finito/infinito; o mergulho vertical que se nota, valorizando sua condição humana (o artista David Bowie cederia lugar, aqui, ao homem David Bowie) questionando a própria ideia da morte enquanto fenômeno meramente físico; e, ainda, num esforço final, transformar sua inevitável agonia em Arte.

Encenou, por conseguinte, a elevação de sua essência humana ao infinito, contrariando a crueza finita da existência de cada um de nós; algo que estaria reservado ao nosso ‘Starman’, claro. Mas o surpreendente é que até no seu próprio fim o “camaleão do Rock” se reinventaria.

Para que todos saibam com destaque: a presença que se oculta por dentro do “eu” de Bowie, que se esvai doente no referido videoclipe, elevar-se-ia ao fim de tudo; desapareceria na escuridão do armário/infinito ao final (a canção sinaliza o seguinte desabafo: ‘Look up here, I’m in heaven/ I’ve got scars that can’t be seen/ I’ve got drama, can’t be stolen/ Everybody knows me now’).

Podemos assim idealizar o quanto a música (a Arte, como um todo) lhe fazia bem, posto que adquirisse, através de suas sensações, uma força peculiar na medida em que mais verdadeiramente a experimentasse, tornando-se outro com ela/através dela. E, no caso de sua doença, imaginamos que ele se transformou mesmo, enfim, num outro ser revigorado, curado totalmente e viajando para outros espaços.

Outros enigmas além dele mesmo.

Seus fãs perceberam isso muito claramente.

Assim sendo, há artistas tão constantes em nosso caminhar vida afora que, por vezes, achamos que eles nunca hão de morrer.

É o caso desse nosso amigo excêntrico.

Enquanto escrevo este texto, recapitulo certos momentos de minha vida adulta (não sou mais aquele garotinho de 11 anos…) e me encontro assim: emocionado, lágrimas nos olhos, embalado para sempre por certas canções de David Bowie…

Agradeço-lhe, amado amigo, por ‘Sound and Vision’, ‘Stay’, ‘Ashes to Ashes’, ‘Sorrow’, ‘Let Me Sleep Beside You’, ‘Fame’, ‘Golden Years’, ‘The Man Who Sold the World’, ‘Station to Station’, ‘Changes’, ‘China Girl’, ‘Moonage Daydream’, ‘Soul Love’, ‘Be My Wife’, ‘Rebel, Rebel’, ‘Modern Love’, ‘Absolute Beginners’, ‘As the world falls down’, e tantos outros sons inesquecíveis (além das já anteriormente mencionadas).

Assim, aquele que um dia nasceu David Robert Jones seguirá, de agora em diante, novos rumos em outras galáxias, quem sabe. Continuando-se, desafiando-se, metamorfoseando-se, como sempre e para sempre!

Melhor: florescendo a cada nova partida/recomeço.

Hoje, logo, não pensaremos com tristeza nesta sua definitiva (por aqui, na Terra) passagem. É mais coerente fazermos jus à sua vontade incessante de nascer-morrer, morrer-nascer, tornar-se o outro que ele sempre foi e será, realizando agora esta que é mais uma de suas curiosas transformações.

Afinal, Mr. Bowie é um vampiro muito inquieto: consagrou-se no dia 10/01/2016, categoricamente, como um aristocrata do pop, encarnação serena de uma infinita “Fome de viver”!

E nós?

Continuaremos seus súditos, a seguir, deslumbrados, o seu rastro de estrelas.

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André Carneiro Ramos é doutor em Literatura Comparada. Atualmente leciona Literatura Portuguesa e Literaturas Africanas na UFRRJ – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

 

RL

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